A orientação divina é como a luz do sol e a chuva: derrama-se igualmente sobre todos, mas alguns se afastam da luz e evitam a chuva.
A Orientação Divina no Alcorão
Muitos versículos do Alcorão descrevem Deus como Aquele que guia.
No versículo 50 da Surata Taha lê-se:
“Nosso Senhor é Aquele que concedeu a cada criatura a forma que lhe é própria e depois a guiou.”
«رَبُّنَا الَّذِي أَعْطَى كُلَّ شَيْءٍ خَلْقَهُ ثُمَّ هَدَى»
E no versículo 213 da Surata Al-Baqarah:
“Deus guia quem Ele quer para o caminho reto.”
«وَ اللَّهُ يَهْدِي مَنْ يَشَاءُ إِلَى صِرَاطٍ مُسْتَقِيمٍ»
Também no versículo 93 da Surata An-Nahl:
“Deus desvia quem Ele quer e guia quem Ele quer.”
E no versículo 8 da Surata Fâtir:
“Deus desvia quem Ele quer e guia quem Ele quer.”
Diante desses versículos, surge a questão:
Por que Deus priva alguns de Sua orientação? Isso seria justo? Seria compatível com a sabedoria divina?
Dois Tipos de Orientação
Antes de responder, é necessário compreender que o termo “orientação” no Alcorão possui duas dimensões:
1. Orientação Taqwîni (Cósmica ou Inata)
Significa que Deus criou cada criatura com uma capacidade natural de alcançar seu objetivo:
- os animais sabem como se alimentar,
- construir seus ninhos,
- reproduzir-se,
- cuidar de seus filhotes.
Tudo isso demonstra a presença de uma força orientadora divina por trás da criação.
Essa orientação é universal, concedida a todos os seres — inclusive ao ser humano, através da fitra (natureza primordial).
Não há qualquer discriminação nesse tipo de orientação.
A orientação inata se divide em:
- Não consciente: os impulsos instintivos, como os dos animais.
- Consciente: as tendências espirituais e morais da fitra humana.
2. Orientação Tashrî‘i (Normativa ou Revelada)
Consiste no envio de profetas, livros divinos e leis celestes.
O Alcorão diz (21:73):
“E Nós os fizemos líderes que guiavam por ordem Nossa.”
Essa orientação também é universal — todos têm acesso a ela.
Porém, nem todos a aceitam. Alguns preferem resistir à verdade e acabam afastando-se por sua própria escolha.
O Que Faz a Pessoa Receber ou Perder a Orientação?
A “orientação divina” também é chamada de tawfîq (sucesso espiritual concedido por Deus).
Deus concede esse sucesso àqueles que demonstram empenho, pureza e obediência.
E retira esse sucesso daqueles que, pelo pecado e pela teimosia, se tornam indignos dele.
A seguir, alguns fatores que privam a pessoa da orientação divina:
1. Pecado e Desobediência
Surata Al-Ahzab (33:36):
“Quem desobedecer a Deus e ao Seu Mensageiro desviou-se manifestamente.”
2. Incredulidade e Rejeição da Verdade
Surata Al-Baqarah (2:264):
“Deus não guia os incrédulos.”
3. Injustiça
Surata Al-Baqarah (2:258):
“Deus não guia os injustos.”
4. Andar em caminhos de dúvida
O Imam Ali (a) aconselhou:
“Não entres por um caminho cujo desvio receies; abster-se diante da dúvida é melhor que lançar-se ao perigo.”
5. Hipocrisia
O Imam Ali (a) descreve os hipócritas:
“Eles são desviados e desviam outros...”
6. Pecados como incredulidade, mentira e excesso
O Alcorão afirma:
- 5:67 — Deus não guia o povo incrédulo.
- 39:3 — Deus não guia o mentiroso ingrato.
- 40:28 — Deus não guia o extravagante e mentiroso.
7. Arrependimento
Surata Ar-Ra‘d (13:27):
“Deus guia para Si aquele que se volta arrependido.”
8. Esforço e Jihad espiritual
Surata Al-‘Ankabût (29:69):
“Os que lutam por Nossa causa — certamente os guiaremos a Nossos caminhos.”
Conclusão: Orientação ou Desvio — Uma Escolha Humana
A orientação de Deus engloba todos.
Mas se alguém destrói seu terreno interior — seja pela teimosia, pecado, hipocrisia ou injustiça — ele próprio cria o obstáculo para a orientação.
Assim como alguém que foge da luz do sol ou se esconde da chuva, perde algo que estava disponível para todos.
Deus não força ninguém a ser orientado.
Se fosse assim, não haveria mérito moral, nem valor para a fé, nem sentido para o teste da vida.
Por Que o Desvio Às Vezes É Atribuído a Deus?
Porque Deus colocou uma lei no universo moral:
A repetição de más ações enfraquece a sensibilidade espiritual,
até que a pessoa passe a ver o mal como bem.
Deus não força alguém a se desviar — mas determinou que as escolhas erradas produzam consequências espirituais naturais.
Assim, o desvio é resultado:
- da teimosia,
- da corrupção,
- da fuga da verdade,
- da busca pelos desejos,
- do rompimento do pacto com Deus.
E nada disso contraria a justiça divina — porque o ser humano sempre teve a liberdade de escolher.
Referências
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Tafsīr-e Nemūneh, Makarem Shirazi, Nasser. Tafsīr-e Nemūneh. Dar al-Kutub al-Islamiyyah, Teerã, 1995 (1374 H.S.), 1ª edição, vol. 13, p. 219.
-
Ibid., vol. 26, p. 385.
-
Ibid., vol. 19, p. 483.
-
Ibid., vol. 14, p. 422.
-
Ibid., vol. 19, p. 483.
-
Respostas às Perguntas Religiosas, Makarem Shirazi, Nasser. Publicações Imam Ali ibn Abi Talib (a), Qom, 1998 (1377 H.S.), 1ª edição, p. 549.
-
Makatīb al-A’immah (as), Ahmadi Miyānajī, Ali; edição crítica: Faraji, Mojtaba. Editora Dar al-Hadith, Qom, 2005 (1426 H.Q.), 1ª edição, vol. 1, p. 539.
-
Nahj al-Balāgha, Sharif al-Radi, Muhammad ibn Husayn; edição crítica: Feyz al-Islam. Editora Hijrat, Qom, 1993 (1414 H.Q.), 1ª edição, p. 307.
-
Cf. Tafsīr-e Nemūneh, vol. 22, p. 388, com síntese e leves modificações.
-
Cf. Ibid., vol. 1, p. 84.
-
Cf. Ibid., vol. 15, p. 398.
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